sábado, 14 de janeiro de 2012

Quebrando os grilhões...



Trechos da “Entrevista com D. Sônia Maria Mendes, moradora da comunidade de Santo Antonio, filha da terceira geração dos nativos do local” para a Monografia “As Tranceiras de Santo Antonio – Tradição e Cultura construindo uma possibilidade de desenvolvimento sustentável”, apresentada por Alessandra Vilas-Bôas Pereira, Bárbara C. Teixeira Menezes e Simone Oliveira de Macedo em 1999, Salvador, Universidade Salvador, Departamento de Ciências Humanas - (há 13 anos).
 “B.         Então morreram 8 e vingaram dois, mas morreram de que mesmo?
  S.         Que diacho, sabe minha irmã, morreu pequeno...
 B.         Morreram no parto?
 S.         Não, só teve dois mesmo que morreu um com 5 anos e outra menina com 2 anos, esses foi o maior mesmo que morreu, os outros morreu tudo pequeno, nascia e morria com poucos dias de nascido morria, outro tinha 3 mês não engordava, sei lá, num ia pro médico, né minha filha?”
“... e ai eu to nessa vida aqui lutando, perdi outros, tive hemorragia, já fui até de cama pra o outro lado, de lá  me levaram para Lauro de Freitas, agora o meu mais novo já vai fazer 10 anos, o derradeiro, depois tive problema de novo, voltei pra lá de novo, por isso que eu digo que pra o que já foi , isso aqui tá muito melhor hoje, (depois que abriu a cancela) e eu tenho esperança de melhorar, pelo que nós já passamos eu tinha esperança por que eu vivia isolada, eu só não, todo mundo, nós não sabia conversá porque vivia aqui no mato, num tinha ninguém para ensinar nada a gente, não era como agora, e eu tenho fé pra ter alguma coisa melhor...”
... “Você vê agora já tem a ponte, antigamente a gente tinha os filhos em casa, doente tinha que ir a pé, eu já fui me acabando de dor para o médico...” 
“... agora, depois que o pai de Bebeto comprou e botou aquelas cancelas... aí você vê que tem casca de côco pela rodagem toda e isso tudo foi meu avô, meu tio e meu pai que fizeram essa rodagem encascada. Mas antes era melhor, agora depois que passô para ele, fechou, agora, quando tem conhecimento, sendo conhecido, vem né?

Alguém que não tenha lido os créditos acima, vai pensar que essa entrevista foi feita a mais de 50 anos. Não. Foi feita a apenas 13 anos. É porque o tempo parou para esta Vila, no exato momento em que foi posta uma cancela, divisória infame entre o acesso a saúde, a educação, o transporte e a informação. Cancela que sitiava, isolava, como os exércitos romanos faziam, esperando pacientemente os pais que não agüentavam ver seus filhos morrerem de fome, até que se rendiam, entregando seus bens ao saque.

Essa conta de morte e sofrimento, quem há de pagar? O dono da cancela que só foi aberta por ordem judicial? Os burocratas que planejam e aprovam leis, com capítulos inteiros que protegem com fervor a fauna e a flora e nem uma linha em consideração as crianças que vivem dentro de uma Reserva, cujos ancestrais preservaram o objeto de sua lei excludente?  Os dirigentes dos órgãos de fiscalização que não exigem dos donos das Reservas, o mínimo que a lei garante a essas pessoas? Os ambientalistas que consideram essas mães e crianças natimortas incômodas a contemplação da natureza pelas gerações futuras? A sociedade mais esclarecida, que pede “cuidado para que seja mantido o modo de vida simples daquelas pessoas”, sem conhecer o que é o modo de vida simples daquelas pessoas?  Os políticos que preferem não entrar na zona perigosa do conflito entre pessoas simples e grandes empreendimentos?  
Essa conta está aberta no andar de cima e um dia todos nós vamos pagar a nossa parcela. 

Mas não vamos falar de passado, vamos nos ater ao agora. D. Sonia, da entrevista acima, chegou do hospital hoje, onde estava doente. Graças a Deus, foi e voltou em carro de um parente. Porque se dependesse do SAMU para vir buscar, ai, ai, ai. Como o SAMU vai passar nessa estrada de areia? Aqui só vem carro traçado e quem tem negócio, como diria minha avó.  Não é muito diferente da realidade de 12 anos atrás. O trajeto de quase 3 km na areia quente ou sob a chuva é feito até hoje, para quem quer trabalhar, para quem quer estudar, para quem precisa de médico, para qualquer coisa. Tem também a alternativa de pagar R$15,00 ao moto táxi para sair e R$15,00 para voltar. Esse custo inviabiliza o trabalho e os sonhos, põe em risco a vida de quem é obrigado a andar nas dunas noite e dia. 

Mas Deus é bom e a humanidade não está perdida. Existem políticos que amam o seu trabalho. Que se guiam pelo coração. É o caso do Vereador Alexandre Rossi, que essa semana começou os trabalhos de melhoramento da estrada de acesso a nossa Vila de Santo Antonio, hoje, em estado lastimável. Essa ação vai beneficiar mais de 300 pessoas, entre adultos e crianças. Vai mudar a situação de sítio e isolamento que essa comunidade vivencia a mais de 40 anos.  É o começo de uma série de ações que estão sendo encaminhadas junto a Prefeitura de Mata de São João, para melhorar a vida da gente.

Mas, a perseguição de todos quantos se aventurem a fazer alguma coisa por esta comunidade, já é sabida e notória. E o Vereador Alexandre Rossi não escapou dessa prática. Todos sabiam do risco que ele corria ao tomar a iniciativa de ajudar-nos. Não foi surpresa. Surpresa será, se os órgãos a quem o sitiante desse lugar, recorre de uma forma contumaz, lhe der ouvidos, em detrimento ao nosso sofrimento.

Massada ficou pra trás há milênios, Vespasiano também. Os tempos são de esperança. 
Obrigada Alexandre pela coragem!  O Brasil tem jeito meu amigo! Estamos solidários e que Deus o proteja!!!